quinta-feira, 1 de novembro de 2012

RELATO DE UM ATENDIMENTO NA CF SÉRGIO VIEIRA DE MELO



E nem o urubu deixou de ser ave...

Entrou desmaiada e saiu andando, sozinha, zero quilômetro — uma experiência, provavelmente rara, de atendimento de excelência na rede pública


Em uma de suas magistrais crônicas, o poeta e médico Aldir Blanc faz um passeio pelos hospitais públicos do Rio e vai registrando o que acontece: “No Miguel Couto, por exemplo, urubu virou boto; já no Rocha Faria meu tio entrou Sandoval e saiu Ana Maria.” E segue pelo Souza Aguar, Rocha Maia, anotando situações tão inimagináveis quanto verossímeis. Aldir, o Proust de Vila Isabel, é mestre no melhor uso da irreverência crítica. Esta, aliás, é também uma das marcas do carioca. Dificilmente a população erra a piada: vai certeira no alvo. E seu poder é devastador. Nesse sentido, a triste situação de nossa rede pública de saúde é um prato cheio para a carga crítica contida no humor. No entanto, uso este espaço aqui para relatar uma experiência em que nem o urubu deixou de ser ave, tampouco Sandoval virou tia!
Na última sexta-feira, dia 26, seguia da Barra para a Glória, na companhia de uma pessoa que trabalha para a minha família. No início da Linha Amarela, ela começou a passar mal. Sentia-se fraca, achava que a pressão estava caindo, a ponto de pedir que a levasse a um hospital. Tentei ganhar tempo e, já na Avenida Brasil, parei numa loja de conveniência, comprei doces e salgados, além de uma bebida isotônica na esperança de que fosse suficiente para que se recuperasse. Segui pela Rodrigues Alves torcendo para que os doces e salgados fizessem efeito. Porém, ela piorou. Ficou fraca, sonolenta e mal conseguia falar. Sem um hospital por perto, sem saber para onde levá-la e lembrando do travelling do Aldir pelos hospitais do Rio, me vi já diante do Santa Bárbara, já com ela praticamente desmaiada. Eis que à esquerda, pouco antes da entrada do túnel, identifico uma construção nova, que me pareceu uma escola, com o símbolo da prefeitura do Rio estampado no alto, mas consegui ler numa parede lateral: “Clínica da Família Sérgio Vieira de Mello.”
Fiz o retorno, parei praticamente dentro do lugar e pedi ajuda a uma mulher num guichê próximo à porta. “Tenho uma pessoa passando muito mal. Vocês podem atender?” A mulher não só respondeu que sim, como ofereceu uma cadeira de rodas e apontou a sala para onde eu deveria levá-la. Não pediu documento algum. Perguntou apenas se ela morava nas imediações. Daí pra frente ocorreu uma sucessão de situações inimagináveis em se tratando de saúde pública. Ela foi atendida imediatamente, primeiro por uma enfermeira que tirou a pressão, furou o dedo para medir a glicose e, em menos de cinco minutos, já estava numa sala tomando soro, diante de um médico atento e cuidadoso. Vale dizer: o ambiente era de Primeiríssimo Mundo, melhor do que a gente encontra em emergência de redes de hospitais privados da Zona Sul da cidade, desses da Barra e de Copacabana, para onde eu pretendia levá-la. Sala limpa, refrigerada, bem cuidada, além de material esterilizado. Tudo novinho. Não só a sala era limpa, como todo o ambiente da clínica. Enquanto ela era atendida — passou umas três horas no soro — tinha a pressão monitorada constantemente na presença de duas enfermeiras e de um médico, a cada 10 ou 15 minutos.
Resumo da história. Ela entrou desmaiada e saiu andando, sozinha, zero quilômetro. Foi atendida rapidamente, bem cuidada e eu deixei o local, naturalmente aliviado e surpreso com a qualidade do atendimento. Um alento para quem passou parte da vida reportando a situação dos hospitais e ouvindo falar que 80% dos casos podem ser tratados em clínicas simples, desde que funcionem. Esta mensagem tem, assim, dois objetivos: usando um termo da moda, “compartilhar” uma experiência, provavelmente rara, de atendimento de excelência na rede pública, e tentar desfazer a máxima de que jornalista só dá notícia ruim. E quem sabe um dia mestre Aldir não reencontra no Rocha Faria o Tio Sandoval que virou Ana Maria.
BRUNO THYS é jornalista.


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